Além de uma conversa de metrô

Todos pararam pra prestar atenção na conversa.

Ele não falava muito baixo, mas isso não parecia incomodar as pessoas, pelo contrário. O fato dele falar as alegrava. Principalmente o assunto daquela conversa de metrô.

A moça puxou conversa com ele, perguntando se estava sozinho. Prontamente ele respondeu que não. Estava com o pai. O uniforme e o crachá pendurado em uma cordinha que ficava ao redor do seu pescoço fizeram com que ela continuasse a perguntar.

Está indo trabalhar?

E ele disse que sim. E que aquele era o dia que acabava. Que encerrava. E então perguntou se para ela também.

Não, eu trabalho amanhã!

Amanhã é sábado…

Ela respondeu que sim. Ele fez uma expressão de quem achava uma pena ter de trabalhar em um sábado. Todos em volta sorriram, inclusive a moça.

Para mim hoje é o dia que acaba. Pra você é amanhã- Ele disse

Ela perguntou se ele só estava indo trabalhar hoje ou se tinha ido mais dias.

Quatro dias.- E mostrou 4 dedos na mão.- Quatro, quinta e hoje.

Terça, quarta, quinta e hoje?

Exatamente.

É trabalhador!

E ele assentiu, sorrindo.

Ao longo da conversa ainda ficamos sabendo que ele tinha 30 anos e que seu pai sempre o acompanha na empresa onde estava trabalhando.

A palavra inclusão não se refere exclusivamente a permitir que uma pessoa estude ou trabalhe num local, mas que ela faça parte de fato daquele ambiente, convivendo com todos. Espero que mais conversas como essa aconteçam por aí todos os dias.

 

Maithe Martins

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O bater de asas da borboleta

Era uma noite fria de um sábado. Eu estava no mercado acompanhando meus pais numa compra semanal. Tudo ocorria como de costume: minha mãe pedia-me para procurar certas coisas e eu acatava seus pedidos. As pessoas, como sempre, focavam-se em suas próprias tarefas, evitavam manter contato visual e empurravam, sistemicamente, seus carrinhos de compras. Suas expressões esboçavam alienação a qualquer estímulo externo, imersas numa cúpula de pensamentos, num microcosmo tecido pelo conflito secular entre o caos e o vazio.

Tudo corria como as engrenagens de um relógio. A sequencialidade e a forma dominavam cada passo e cada suspiro dos indivíduos que compunham tal cenário. Tão ordinal que o simples cair de uma pena afetaria tamanha arbitrariedade de eventos. E o curioso é que, de fato, a pena caiu.

Enquanto procurava alguns produtos demandados, reparei que o vulto de uma figura aproximava-se de mim. Ao voltar meus olhos diante deste vulto, me deparei com uma cena que não me escapa da memória: uma mulher, por volta dos 30 anos. Seu semblante era vazio e tomado pela cólera de quem há muito não sentia o suave toque do alívio ou o fervor extasiante da esperança. Suas roupas estavam tomadas pela marca da negligência e suas mãos, trêmulas, externalizavam o rebuliço da fome.

Ela perguntou-me se eu poderia comprar-lhe um ovo. Respondi que não saberia exatamente como comprar-lhe o ovo, uma vez que os ovos são vendidos em conjunto. A mulher, numa expressão de exaustão e agonia, respondeu que não sabia e que simplesmente estava morrendo de fome. Comovido com seu estado, retirei 10 reais de minha carteira e a dei esperando que isto pudesse acalentar suas dores. Ela entrou num estado catártico e agradeceu inúmeras vezes pelo meu ato. Em seguida, a mulher perguntou qual era meu nome. Respondi: “Matheus”. Então, perguntei qual era o dela, e ela respondeu: “Alice”.

Aquela foi a última vez que vi Alice. Desde então, fiquei me perguntando o que de fato poderia ter ocorrido com ela. Teria aquela pequena quantia de dinheiro suprimido sua necessidade momentânea de alimento? Seria de fato alimento que necessitava? Será que, neste exato momento, falamos de uma pessoa que já descansa abaixo da superfície? Será que pude prolongar, mesmo que minimamente, a vida daquele indivíduo importunado pela invisibilidade?

Ah, a invisibilidade… a dádiva dos soberbos e a maldição dos negligenciados.

 

Matheus Tamura

Revisado por Maithe Martins

Enquanto isso na estação Ana Rosa

O trem chegou na estação.

Uma pessoa estava sentada em uma cadeira da plataforma. Outras pessoas estavam no vagão. Umas querendo sair e outras esperando para entrar. Era um dia de semana. Por volta das 17:30. Em São Paulo, nesse horário, as pessoas tendem a ter pressa. Natural.

Mas a pessoa que estava sentada na cadeira da estação viu uma menina dentro do vagão. Ela parecia não ter pressa. Isso porque se levantou de onde estava, mas não saiu do lugar. Quem estava ao seu lado olhou sem entender o que estava acontecendo.  E a pessoa sentada, que observava, também ficou sem entender. Enquanto por uns segundos a menina olhava pra fora como se não entendesse o que estava vendo. Dentro do vagão as pessoas talvez se perguntassem: ” Ela está perdida?”, “Não sabe em que estação estamos?”. Mas ninguém disse nada. De repente, como se voltasse para a realidade, a menina, com um olhar assustado, saiu do trem em que estava. Para a surpresa da pessoa que estava sentada na plataforma, a menina não foi embora. Ela entrou em outro vagão.

O trem saiu da estação.

Quem observava não entendeu o que houve. A pessoa sentada não sabia o que se passava na cabeça da menina. O rapaz ao lado dela também não. Muito menos as pessoas que estavam em pé ao seu redor esperando que ela liberasse o assento. Ninguém nunca vai saber realmente o que aconteceu. Especialmente as pessoas do vagão que ela entrou em seguida. Talvez nem ela saiba.


Maithe Martins

Revisado por: Alice Costa

Histórias de Metrô

Estava na hora das meninas irem para a escola. Todos os dias iam com sua mãe até a estação da consolação. A mãe as deixava na catraca. Lá o pai encontrava as três. Enquanto esperavam, as irmãzinhas tentavam se divertir (da forma que conseguiam). Brincavam nas catracas. A mãe brigava. Iam dois passos mais longe do pai. O pai brigava. A mais velha tentava carregar a mais nova. Ambos brigavam. Um pouco mais cedo, e dentro da estação, uma senhora fazia todos os dias o mesmo ritual. Saía do metrô e sentava. Pegava o salto de dentro da bolsa e tirava o tênis. E quando eu imaginava que ela já estava pronta para um dia de trabalho…. Ela tirava o moletom, encontrava dentro da bolsa enorme a sua camisa (Que para minha surpresa não estava amassada) e a vestia.

Um pouco mais inusitado foi o dia em que duas crianças estavam ao meu lado. Pareciam aguardar alguém. A menina, mais velha que seu irmão, pegou o celular e começou a falar. Falava em uma língua que eu tive sérias dúvidas se era ou não espanhol. E como se isso já não tivesse me surpreendido, as duas crianças saíram sozinhas do metrô em direção a Paulista! Imagino que se fosse eu em um país estranho, não teria tanta coragem. Ah, e não posso esquecer de dizer que já ouvi muitas e muitas histórias. Um rapaz que só ia na autoescola pra pôr a digital. Uma senhora e seus infinitos problemas. A colega de trabalho insuportável e o chefe que tirava do sério. Em seis meses de metrô (quase todo dia) vi muitas coisas que valem a pena serem lembradas e contadas. E não posso deixar de imaginar se alguém também me observou e saiu contando por aí!

 

Maithe Martins

“A arte faz eu fugir da rotina”

 

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Caio Araújo/ Fotografado por Maithe Martins

Quem disse essa frase foi Caio Vinícius Almeida de Araújo, 22 anos. Fotógrafo. Na verdade, um artista. Ninguém poderia dar um panorama melhor sobre arte do que um jovem que desde cedo a tem como parte de seu dia a dia e que além disso a vê como base para seu futuro.

 

Seu contato com a arte teve início por volta dos seis anos quando começou a desenhar. Atividade em que até hoje tem interesse. Grande parte de seus desenhos são do Dragon Ball, mas ele conta que já tentou muitos estilos diferentes e que tem vontade de desenvolver desenhos hiper realistas. Quando tinha nove anos sua mãe o colocou em um curso de desenho, no qual ele não se adaptou muito bem por conta de todas as regras. “Achei tudo muito quadrado. Cheio de regra, cheio de coisa. E não fazia muito meu perfil”.
Ainda com seis anos passou a estudar a arte que se tornaria a mais presente em sua vida, música. Seu primeiro instrumento foi o piano, mas atualmente também toca guitarra, bateria, baixo, violão, teclado e violoncelo, além de arriscar um som no violino e sitar. Ainda revela que não tem muita facilidade com os instrumentos de sopro apesar de já ter tentado tocar alguns, como: saxofone, flauta e clarinete. Caio aprendeu a tocar com o Projeto Guri perto de sua casa que frequentava após as aulas da escola. Para ele a música é uma forma de se expressar. E um dos fatos mais impressionantes sobre essa arte é a forma como ela se mantém a tanto tempo na nossa história. Inclusive, quando perguntei qual seria a obra artística que resumiria sua vida ele disse que poderia ser uma ópera. Mais especificamente uma ópera rock, super dramática, com um ambiente escuro, figurinos extravagantes, além de muita coisa triste, mas ao mesmo tempo cômico. E claro, muita música.

Após alguns anos ele passou a investir em uma nova habilidade, a fotografia, que para ele é uma forma de registrar momentos. Comprou sua câmera em 2017 e assim começou a explorar esse novo horizonte que também trouxe oportunidades de trabalho. Ele explica que considera fotografia uma forma de arte porque o resultado depende muito do olhar do fotógrafo, é algo subjetivo. “Se qualquer outra pessoa tentar fazer a mesma foto, reproduzir a mesma foto, não vai sair igual porque é o subjetivo de cada um”. Ao reparar que lojas de roupas e brechós estavam fazendo fotos de seus produtos para divulga-los da mesma forma que ensaios de grandes marcas, ele percebeu que essa poderia ser uma forma de trabalhar com isso.

 

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Caio Araújo/ Fotografado por Maithe Martins

 

E por último, mas não menos importante, conversamos sobre artigos que ele tem escrito e publicado online recentemente. Ele gostaria de trabalhar com artigos científicos, pesquisa e crítica, mas no momento tem redigido artigos de opinião. Segundo ele, é uma maneira de por algumas coisas pra fora e falar de assuntos que não são muito discutidos ou divulgados por não serem temas fáceis de se abordar. Quando escreve ele tenta ser o mais objetivo possível para que um número maior de pessoas possa entender sobre aquele assunto.

Ele que estava tão sem jeito no começo da entrevista, foi se soltando e contou fatos muito legais em relação à arte e sua história. “Eu acho que a arte se relaciona comigo na minha história inteira.” Ele disse que não conseguiria se ver chegando em algum lugar se não fosse por causa da arte. Sente que nessa área ele pode se destacar muito mais do que se tentasse uma carreira acadêmica, por exemplo. Também conta que a arte proporcionou muitos caminhos e novos contatos para ele, inclusive artistas famosos. Mas um dos momentos decisivos para ele entender a importância de tudo isso na sua vida aconteceu cinco anos atrás: Ele ainda estava na igreja e acabou sendo convidado para tocar para mais de três mil pessoas junto com o pessoal da banda. “Eu não sabia o que eu tava fazendo. Não sabia nada que eu tava fazendo. Tava morrendo de nervosismo.” Tinha dado branco em tudo que estava acontecendo e ele sabia que era muita coisa. Tinha chegado num lugar muito grande e devia encontrar um jeito de lidar com toda aquela pressão. “Foi um marco, foi ali que eu decidi que realmente eu to focado na arte de verdade.”

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Desenho de Caio Araújo

 

Maithe Martins

Revisado por Helena Gomes